🟢 Quando o País Vira Paisagem (filme 18/48)
- André

- 8 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Atravessar o caos com uma câmera na mão.

Vídeo/Imagem: site rotten tomatoes
Eu assisti a Guerra Civil sem muitas expectativas, na verdade nenhuma, até porque seu roteiro não é exatamente meu interesse maior nesse ano de 2025. Foi praticamente um verdadeiro "passatempo". O que me interessava ali não era entender quem estava certo ou errado, nem procurar paralelos fáceis com o mundo real. O filme começa num território mais desconfortável: aquele onde nada é explicado direito, mas tudo é sentido.
Logo nos primeiros minutos, fica claro que não se trata de um filme sobre política. É um filme sobre pessoas vivendo dentro de um colapso que já não cabe mais em discursos. Um colapso cotidiano, normalizado, atravessado como se fosse só mais uma estrada a ser percorrida.
Enquanto assistia, tive a sensação estranha de que aquilo não falava sobre um futuro distante. Falava sobre um tipo de presente que a gente insiste em não olhar de frente.
O que mais me chamou atenção foi a escolha de não explicar as causas da guerra. Não há contexto histórico detalhado, não há justificativas ideológicas claras. Existe apenas o fato consumado: o país está quebrado, fragmentado, armado até os dentes. E talvez isso seja o mais honesto do filme. Porque, quando tudo desmorona, quase ninguém lembra exatamente onde começou. As pessoas apenas continuam. Se adaptam. Criam rotinas dentro do absurdo.
Os jornalistas são o fio condutor da história, mas não como heróis. Eles não salvam ninguém. Eles não impedem nada. Eles registram. A câmera vira uma espécie de armadura emocional. Um jeito de continuar ali sem, de fato, estar. Fotografar, filmar, anotar….tudo isso cria uma distância segura entre quem observa e o que é observado.
Wagner Moura, no papel de Joel, traz uma energia inquieta, quase viciada. Ele parece se alimentar do risco, da urgência, da proximidade com o desastre. Não por maldade, mas porque aquilo se tornou seu modo de existir. A adrenalina substitui qualquer outra sensação. Já Lee, vivida por Kirsten Dunst, carrega um cansaço mais silencioso. Ela faz tudo com precisão, mas sem encanto. Como quem já viu demais e aprendeu a não reagir.
E então surge Jessie. Jovem, curiosa, ainda atravessada por alguma sensibilidade. No começo, ela observa tudo com olhos arregalados. Aos poucos, o choque vira método. O espanto vira técnica. O horror vira cenário. Essa transformação é talvez o ponto mais duro do filme. Não porque seja extrema, mas porque é sutil. Não há uma grande quebra. Há um ajuste progressivo. Um aprendizado torto de como continuar funcionando num ambiente que já perdeu qualquer noção de normalidade.
Enquanto via isso, fiquei pensando em quantas vezes a gente também se adapta a contextos que não deveriam ser normais. Quantas vezes a gente aprende a seguir em frente apenas para não parar e sentir.
O filme não faz discursos. Ele mostra trajetos. Estradas longas, postos de controle improvisados, cidades em ruínas, pessoas armadas que não sabem mais exatamente por que estão ali.
Tudo vira paisagem. Porque quando tudo vira paisagem, nada mais mobiliza. A violência deixa de ser exceção e passa a ser parte do cenário. Algo que se atravessa, se registra e se deixa para trás. A neutralidade do jornalismo, tão questionada no filme, não aparece como virtude nem como falha. Ela aparece como sobrevivência. Um modo de continuar existindo num ambiente onde tomar partido pode significar desaparecer.
Mas o preço disso é alto. O distanciamento cobra seu pedágio. Aos poucos, o olhar se endurece. O corpo segue, mas algo dentro vai ficando opaco. O filme não condena nem absolve ninguém. Ele apenas expõe o custo de seguir em frente sem pausa, sem elaboração, sem espaço para sentir. E talvez essa seja a maior conexão com a forma como muita gente vive hoje: atravessando conflitos diários como se fossem só mais uma etapa do caminho, sem tempo para entender o impacto real disso tudo.
O final de Guerra Civil é seco, frio e perturbador. Não há catarse. Não há alívio. A imagem final não traz esperança nem fechamento. Ela apenas registra mais um capítulo de um ciclo que continua.
Pra mim, o filme não fala sobre o fim de uma democracia. Ele fala sobre o esvaziamento progressivo da experiência humana quando tudo vira urgência, disputa e ruído. É um filme desconfortável, propositalmente. Não para chocar, mas para cansar. Para mostrar como o excesso de violência, informação e tensão não explode de uma vez. Ele vai anestesiando.
Terminei o filme com a sensação de que o maior perigo não é o conflito em si, mas a facilidade com que a gente aprende a conviver com ele.
Avaliação pessoal (notas 0/10):
Direção: 7
Roteiro: 8
Fotografia: 6
Trilha Sonora: 6
Mensagem: 8
Nota Final: 7
Paz! 🙏🏼




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