🟢 Entre o Barulho e o Silêncio (filme 17/48)
- André

- 3 de out. de 2025
- 3 min de leitura
O que acontece quando a gente para de correr, mesmo sem sair do lugar.

Vídeo/Imagem: site rotten tomatoes
Eu assisti a From Stress to Happiness sem grandes expectativas. Não era um dia especial, nem um momento de epifania. Era só mais um dia comum, desses em que o corpo está presente, mas a cabeça segue alguns passos à frente, resolvendo coisas que ainda nem aconteceram.
O documentário começa simples. Um homem comum, bem-sucedido aos olhos de muita gente, mas claramente cansado por dentro. Não é um cansaço físico. É aquele desgaste mais difícil de explicar, que não some com uma boa noite de sono nem com um fim de semana livre. Enquanto o filme avançava, eu fui percebendo que não se tratava de uma história sobre monges, espiritualidade ou viagens exóticas. Era, no fundo, sobre algo muito mais cotidiano: a forma como a gente vive sem perceber que está sempre em modo de urgência.
Nada ali é explícito. Não há discursos prontos, nem promessas fáceis. O que existe é um convite silencioso para observar a própria vida com um pouco mais de honestidade.
E isso, às vezes, incomoda.
Alejandro poderia ser qualquer um de nós. Ele trabalha muito, decide rápido, resolve problemas, cumpre prazos. Vive cercado de compromissos, metas e expectativas. Tudo parece funcionar, exceto ele mesmo.
O contraste surge quando entram em cena Matthieu e David. Dois homens que vivem em outro ritmo. Não porque ignoram o mundo, mas porque escolheram se relacionar com ele de forma diferente.
O que mais me chamou atenção não foi a tranquilidade deles, mas a ausência de pressa. Eles falam devagar, escutam com presença e parecem confortáveis com o silêncio. Algo raro hoje.
Em nenhum momento o filme sugere que todos deveriam largar tudo e seguir esse caminho. Pelo contrário. A transformação de Alejandro acontece justamente porque ele não abandona sua vida, apenas passa a observá-la com outros olhos.
Há uma ideia central que atravessa o documentário inteiro: felicidade não é um evento, nem um prêmio, nem algo que chega depois que tudo dá certo. Ela é construída, treinada, praticada. No detalhe. No pequeno. No agora.
Essa noção desmonta muita coisa que a gente aprende ao longo da vida. Porque fomos educados a acreditar que primeiro vem o esforço extremo, depois o reconhecimento, depois o descanso. Só que, quando o descanso chega, muitas vezes ele já não resolve mais nada.
Outro ponto que me marcou foi a inversão da lógica da gratidão. Não é estar bem para agradecer. É agradecer para conseguir estar bem. Parece simples, quase óbvio, mas na prática é desafiador. Exige pausa. Exige presença. Exige sair do piloto automático.
Enquanto assistia, eu me peguei pensando em quantas decisões da minha vida foram tomadas buscando conforto, estabilidade ou segurança, e quantas delas, na prática, só adicionaram mais peso à rotina. Não existe vilão nessa história. Existe condicionamento. Existe hábito. Existe uma normalização do excesso que a gente aprende a chamar de sucesso.
O documentário não aponta um caminho único. Ele mostra possibilidades. Pequenas escolhas. Mudanças quase invisíveis para quem olha de fora, mas profundas para quem vive. Silêncio em meio ao ruído. Presença em meio à pressa. Gentileza em meio à cobrança. Nada disso exige isolamento ou ruptura radical. Exige consciência.
Talvez o ponto mais honesto do filme seja mostrar que a transformação não é espetacular. Não há um “antes e depois” cinematográfico. Há ajustes. Reposicionamentos. Uma nova forma de se relacionar com o tempo, com as pessoas e consigo mesmo. E isso conversa muito com a ideia de atravessar a vida de forma mais intencional. Não como quem foge, mas como quem escolhe. Não como quem se anula, mas como quem se escuta.
O filme não oferece respostas prontas. Ele devolve perguntas. E talvez esse seja seu maior mérito.
From Stress to Happiness não é um documentário para assistir com pressa. Ele pede pausa. Pede silêncio depois que termina. Pede digestão. Não é um conteúdo que vai mudar sua vida da noite para o dia. Mas ele pode plantar algo. Uma dúvida. Um incômodo. Um convite.
Pra mim, ficou a sensação de que muitas vezes a gente não precisa de mais ferramentas, mais metas ou mais controle. Precisa de menos cobrança, menos comparação.
O filme me lembrou que estar vivo não é apenas cumprir tarefas. É perceber o caminho enquanto se anda. Mesmo quando o caminho é confuso. Mesmo quando não há respostas claras.
Não é sobre felicidade plena. É sobre leveza possível. E isso, hoje, já é muito.
Talvez a pergunta que o documentário deixa não seja “como ser feliz”, mas algo mais simples e mais difícil ao mesmo tempo: em que momento a gente decidiu que viver precisava ser tão pesado?
Avaliação pessoal (notas 0/10):
Direção: 9
Roteiro: 9
Fotografia: 9
Trilha Sonora: 6
Mensagem: 10
Nota Final: 9
Paz! 🙏🏼😊




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