🟢 Entre Portões, a Vida Não Para (filme 32/48)
- André

- 28 de nov. de 2025
- 2 min de leitura
Dignidade, pertencimento e humanidade em um lugar de passagem.

Vídeo/Imagem: site imdb
Assisti O Terminal com aquela sensação curiosa de quem acha que já sabe onde o filme vai dar, mas mesmo assim decide ficar. E talvez seja exatamente sobre isso. Ficar. Permanecer, sustentar o tempo. A história de Viktor Navorski começa com um detalhe burocrático e cresce até virar uma aula silenciosa sobre dignidade, paciência e humanidade - coisas que não constam em nenhum formulário de imigração.
Viktor chega a Nova York sem saber que, enquanto cruzava o Atlântico, seu país deixava de existir do jeito que ele conhecia. Ao pousar, descobre que não pode entrar nos Estados Unidos nem voltar para casa. Ele não é um criminoso, não é um refugiado formal, não é um turista. Ele é algo pior para o sistema: um erro administrativo. E é nesse vazio jurídico que o filme encontra sua força.
O terminal vira casa, cidade, escola e espelho. Viktor aprende inglês observando, escutando, errando. Aprende a sobreviver sem reclamar, a se adaptar sem se endurecer. Ele transforma o tempo morto em tempo vivido. Dorme onde dá, trabalha como pode, cria vínculos onde ninguém estava procurando. Enquanto isso, o aeroporto segue seu fluxo frenético: gente chegando, partindo, reclamando do atraso de vinte minutos sem perceber que há alguém ali preso há meses.
O antagonista do filme não é um vilão clássico. É a burocracia com rosto humano. Frank Dixon não é mau; ele é eficiente demais para questionar o próprio papel. Ele cumpre regras, protege estatísticas, preserva a imagem da instituição. E nisso, perde completamente a capacidade de enxergar pessoas. O conflito entre os dois não é gritado, é silencioso - e talvez por isso tão real.
No meio desse limbo, surgem pequenas gentilezas. Funcionários invisíveis, gente que o sistema não destaca, mas que sustenta tudo. São eles que mostram que a vida real acontece nos bastidores, longe das áreas VIP. Viktor se apaixona, não por acaso, por alguém que também vive em trânsito. Amelia voa, mas não chega. Ele está preso, mas cria raízes. O romance é imperfeito, temporário, honesto - como quase tudo que importa.
E há a lata. Um objeto simples, carregado por todo o filme, sem explicação imediata. Quando finalmente entendemos o motivo daquela viagem - cumprir uma promessa feita ao pai - tudo se encaixa. Viktor não veio buscar sucesso, dinheiro ou fuga. Veio fechar um ciclo. Em um mundo obcecado por velocidade, ele atravessa continentes por algo pequeno, simbólico, profundamente humano.
O Terminal não é sobre aeroportos. É sobre o que fazemos quando não controlamos o tempo. Sobre como reagimos quando a vida nos coloca em espera sem aviso. Viktor ensina, sem discursos, que é possível manter a dignidade mesmo quando tudo parece fora do lugar. Que a identidade não depende de um carimbo. E que, às vezes, não avançar é justamente o que nos transforma.
Talvez o filme funcione tão bem porque nos lembra de algo simples: não escolhemos todos os contextos, mas escolhemos como habitá-los. Mesmo em áreas de trânsito, dá pra construir sentido. Mesmo entre portões, a vida passa - e observa como a gente passa por ela.
Avaliação pessoal (notas 0/10):
Direção: 9
Roteiro: 9
Fotografia: 7
Trilha Sonora: 7
Mensagem: 10
Nota Final: 8
Nos vemos no próximo embarque! 🚀




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