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🟢 A Lei é Cega, Mas a Dor Enxerga Tudo (filme 21/48)

  • Foto do escritor: André
    André
  • 17 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

Justiça, vingança e o limite humano diante do irreparável.


Vídeo/Imagem: site prime video



Tempo de Matar não é um filme confortável. E talvez por isso ele siga atual quase trinta anos depois.


Não é um drama jurídico sobre tribunais elegantes ou grandes viradas técnicas. É um filme sobre aquilo que acontece antes da lei chegar….e sobre o que sobra quando ela chega tarde demais. A pergunta é: o que você faria se a justiça não fosse feita para você? Não como abstração. Como corpo, como pai, como alguém que sabe que o sistema não foi desenhado para te proteger.


O filme começa onde muitos discursos acabam: numa violência que não deveria precisar de explicação.


Uma menina negra de 10 anos é brutalmente violentada por dois homens brancos. A cena não é gratuita, ela é desconfortável porque precisa ser. E é ali que o filme estabelece seu tom: não estamos falando de teoria. Estamos falando de carne, trauma e um futuro quebrado.


Carl Lee não age como herói. Ele age como alguém que perdeu qualquer ilusão de neutralidade. O medo dele não é irracional, é histórico. Ele sabe que, naquele Mississippi, dois homens brancos têm mais chances de serem absolvidos do que uma criança negra de ter justiça. Então ele faz o impensável. E, a partir daí, o filme não tenta limpar suas mãos.


Jake Brigance entra em cena como muitos de nós entramos na vida adulta: acreditando que o sistema, com esforço e ética, pode funcionar. Ele confia na lei, mas o filme faz questão de mostrar o preço dessa confiança. O julgamento não acontece em um vácuo. A cidade ferve. A Ku Klux Klan reaparece. O ódio se sente à vontade para sair do subterrâneo. E é aí que fica claro: o tribunal não é neutro. Ele é atravessado por tudo aquilo que finge não ver. A lei se diz cega, mas o filme mostra que ela enxerga muito bem - só escolhe para quem olhar.


O clímax do filme não é uma prova técnica. É um pedido de humanidade. Quando Jake descreve o crime e pede para que o júri imagine a cena, ele não está manipulando, ele está denunciando um limite. A razão sozinha não atravessa o preconceito. A empatia, talvez.


“Agora, imagine que ela é branca.” Essa frase não é elegante, ela é brutal. E talvez por isso funcione.


Ela escancara algo que todos sabem, mas poucos admitem: a justiça muda de tom conforme a cor do corpo que sofre.


O filme termina com absolvição. Mas não com alívio completo. Porque nada ali é vitória. Nada repara o que foi destruído. Carl Lee sai livre, mas a filha não sai ilesa. A cidade não sai transformada. O racismo não sai derrotado. E isso é honesto. Tempo de Matar não oferece catarse, oferece consciência. Ele nos força a encarar que há dores que a lei não alcança, e que exigir racionalidade absoluta de quem foi esmagado é uma forma sofisticada de violência.


Com o tempo, esse filme deixou de ser sobre racismo nos Estados Unidos. Passou a ser sobre sistemas. Sobre quem eles protegem, sobre quem eles toleram e sobre quem eles descartam.


Também me lembra que neutralidade, em contextos desiguais, quase sempre favorece o lado mais forte. E que empatia não é um sentimento bonito - é uma decisão incômoda de atravessar a própria bolha.


Tempo de Matar não pergunta se a vingança é certa. Ele pergunta se a justiça, como está, é suficiente. E talvez a resposta mais honesta seja: nem sempre.


O filme não justifica a violência, mas expõe a violência estrutural que a antecede. E nos obriga a reconhecer algo desconfortável: existem situações em que a moral confortável desmorona diante da realidade crua.


Talvez maturidade não seja escolher o lado “certo”. Mas sustentar a complexidade sem fingir que ela não existe.


Porque algumas dores não pedem julgamento, pedem escuta. E isso, nenhum código penal ensina.


Avaliação pessoal (notas 0/10):


  • Direção: 9

  • Roteiro: 10

    Fotografia: 7

  • Trilha Sonora: 8

  • Mensagem: 10

  • Nota Final: 9


Até a próxima! ✊🏽⚫

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