🔵🟢 Onde o Silêncio Vira Regra (filme 23/48)
- André

- 24 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Quando a fé deixa de acolher e passa a mandar.

Vídeo/Imagem: site el país
Tem histórias que a gente não assiste. A gente atravessa. “João de Deus: Cura e Crime” é uma dessas. Não pelo choque fácil, mas porque ela encosta em algo que quase todo mundo já sentiu em algum nível: a necessidade de confiar em alguém quando a gente está frágil.
Enquanto eu assistia à série, me veio uma sensação conhecida. Aquela de perceber que certos lugares prometem acolhimento, mas exigem entrega total. Não só do corpo, mas do senso crítico, do tempo, do silêncio. E quando isso acontece, algo dentro da gente começa a ficar em segundo plano - mesmo que a gente não perceba na hora.
Esse tema conversa diretamente com tudo aquilo que eu venho observando, vivendo e registrando ao longo do tempo, mas principalmente nesse ano de 2025, onde o estudo (e a experiência) das religiões toma boa parte do meu tempo. Não de forma óbvia. Mas naquele espaço sutil onde escolhas pessoais, estruturas de poder e discursos bem ensaiados se encontram.
A série constrói sua narrativa a partir do contraste. E isso, pra mim, é o ponto mais perturbador. O mesmo lugar que vendia esperança operava o medo. O mesmo discurso que prometia alívio sustentava abuso. Tudo no mesmo endereço.
João de Deus não aparece apenas como um homem. Ele aparece como um sistema. Um centro gravitacional onde tudo girava ao redor da sua palavra. E quando alguém ocupa esse lugar por muito tempo, sem oposição real, sem perguntas incômodas, a lógica muda. Não é mais sobre ajudar. É sobre manter a engrenagem funcionando.
O que mais me marcou foi perceber como o abuso não começava no toque. Ele começava muito antes. Começava na construção da autoridade absoluta. Na ideia de que questionar era sinônimo de ingratidão. Que duvidar era um sinal de fraqueza espiritual. Que sair dali significava perder algo que só aquele lugar poderia oferecer.
E isso não é exclusivo desse caso. É um padrão que se repete em várias estruturas: religiosas, corporativas, políticas, até afetivas. Sempre existe alguém que se coloca como mediador único entre você e aquilo que você busca.
Outro ponto forte da série é devolver o centro da narrativa às mulheres. Não como vítimas passivas, mas como pessoas que entenderam, tarde demais, que algo estava errado - e mesmo assim decidiram falar. O silêncio delas não foi covardia. Foi sobrevivência.
Quando a primeira voz se levanta, o castelo começa a rachar. E não porque o agressor muda, mas porque a narrativa muda de dono. A fé, nesse caso, não foi apenas cenário. Foi ferramenta. Um instrumento sofisticado de controle emocional. E isso me faz pensar muito sobre como discursos bonitos, quando não têm limite, podem se tornar perigosos.
Existe uma linha invisível entre conduzir e dominar. Entre orientar e anular. E quando essa linha é cruzada, o dano não aparece de imediato. Ele se espalha devagar, disfarçado de normalidade.
Esse tipo de história me lembra que nem tudo que parece organizado é saudável. Nem tudo que funciona bem está a serviço das pessoas. Às vezes está apenas funcionando bem para quem está no topo.
A série “Cura e Crime” não é confortável. Ela não tenta explicar demais, nem aliviar responsabilidades. Ela mostra. E confiar no espectador é uma escolha ética. Pra mim, fica um aprendizado simples e duro: qualquer espaço que exige silêncio em troca de pertencimento merece atenção redobrada. Qualquer líder que não suporta perguntas já está dizendo muito, mesmo quando fala pouco. A série vale muito a pena. Não como entretenimento, mas como alerta. Um lembrete de que estruturas não caem sozinhas - elas precisam ser questionadas.
No fim das contas, esse tipo de história não serve pra nos afastar da fé, da busca ou do desejo de melhora. Serve pra nos lembrar que tudo isso precisa caminhar junto com lucidez, autonomia e limites claros.
Porque quando alguém pede que você entregue tudo e não devolve nada além de medo, o problema nunca foi você.
Avaliação pessoal (notas 0/10):
Direção: 9
Roteiro: 9
Fotografia: 7
Trilha Sonora: 7
Mensagem: 10
Nota Final: 8
Fique bem! 💛




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