🔵🟢 Leitura Mensal: Manda Quem Pode... (livro 10/12)
- André

- 20 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 30 de dez. de 2025
Uma leitura antiga que explica, sem rodeios, por que o poder continua funcionando do mesmo jeito.

Vídeo/Imagem: site estante virtual
Ler João Ubaldo Ribeiro falando de política em 2026 não é um exercício de nostalgia. É quase um susto. Porque você começa achando que vai encontrar um texto datado, preso à lógica dos anos 80….e termina percebendo que mudou o figurino, mudou a tecnologia, mudou o discurso - mas a engrenagem é a mesma.
Esse livro não tenta te convencer de nada. Ele só vai tirando, com ironia e calma, as camadas de verniz que a gente coloca em cima da palavra “política”. E quando você percebe, já não dá mais pra fingir que não faz parte disso.
João Ubaldo começa com algo simples, quase óbvio - e justamente por isso incômodo: política não é um lugar que você visita, é um lugar onde você já está. Você não escolhe participar. Você nasce dentro dela.
Quando você aceita uma regra sem questionar, quando paga um imposto, quando se cala, quando terceiriza sua opinião, quando diz “isso não é comigo”.…isso tudo é política em funcionamento.
E o livro vai desmontando, com uma clareza quase cruel, essa ideia confortável de que existe um “eles” lá em cima e um “nós” aqui embaixo totalmente inocentes. Não existe. Existe disputa de interesses. Existe organização. Existe gente que entende o jogo - e gente que prefere não entender.
O tripé que dá nome ao livro é brilhante justamente por ser direto: quem manda, por que manda, como manda.
Quem manda raramente é quem aparece. Quem manda quase nunca é maioria. Quem manda entende que poder não se sustenta só na força, mas na aceitação. E aí entra o “por que manda”.
A gente aceita ser mandado por medo, por costume, por comodidade, por crença, ou porque foi convencido de que não há alternativa. Nada disso é abstrato. Tudo isso é construído no dia a dia, no discurso, na educação, na mídia, nas instituições.
E o “como manda” talvez seja a parte mais atual do livro.
Leis, normas, rituais, cargos, burocracias - tudo isso não é neutro. São ferramentas.
Ferramentas podem organizar uma sociedade ou blindar privilégios. Depende de quem segura.
Essa parte do livro é especialmente indigesta para quem vive no Brasil. João Ubaldo separa algo que aqui a gente insiste em misturar: Estado não é Nação. O Estado é a máquina. A Nação é o povo, a cultura, o sentimento de pertencimento.
Quando o Estado deixa de servir à Nação, ele não entra em crise imediatamente. Ele continua funcionando - mas passa a funcionar para si mesmo e para quem o controla. Essa leitura ajuda a entender muita coisa que a gente vive hoje: a distância entre discurso e realidade, entre promessas e entrega, entre representação e interesse real. Não é falha moral isolada. É desenho estrutural.
O livro também desmonta a democracia idealizada.
Votar não resolve tudo. Votar não encerra o processo. Votar sem consciência é só cumprir um ritual. Democracia exige presença, leitura, incômodo, participação. Exige gente que entende que delegar poder não significa abandonar responsabilidade. João Ubaldo não trata o cidadão como herói nem como vítima. Trata como parte ativa, mesmo quando escolhe não agir. E isso dói mais do que qualquer discurso inflamado.
Os famosos conselhos do pai de João Ubaldo poderiam ter sido escritos ontem. Não seja tutelado. Não seja ignorante. Não seja calado. Não seja medroso. Nada ali é grandioso. É básico. E talvez por isso seja tão raro. Porque dá trabalho sustentar opinião, dá trabalho discordar, dá trabalho não repetir slogan, dá trabalho pensar. Mas é exatamente esse trabalho que impede que o poder vire algo totalmente descolado da realidade.
Ler esse livro nesse último mês foi como olhar para um espelho antigo e perceber que o reflexo ainda é meu. Não é um livro confortável, não é um livro neutro...mas é um livro necessário.
Ele não promete soluções fáceis, não vende salvadores, não romantiza sistemas. Ele só ensina algo fundamental: entender o poder é a única forma de não ser completamente engolido por ele.
Pra mim, foi uma leitura obrigatória, não pela teoria, mas pela lucidez.
Entender quem manda muda a forma como você anda pelo mundo.
Até a próxima leitura! 📖




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