🟢 Leitura Mensal: O Simulacro do Bem-Estar (livro 8/12)
- André

- 9 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Quando o lazer deixa de ser livre e passa a ter preço.

Vídeo/Imagem: site amazon
Sempre me intrigou o conforto quase automático que muita gente, inclusive eu, sente ao entrar em um shopping. O ar é controlado, a luz é perfeita, o chão brilha. Nada ali parece fora do lugar. É como se o mundo real tivesse sido colocado em pausa do lado de fora, junto com o calor, o barulho, a pobreza e os conflitos.
Durante muito tempo, isso me pareceu apenas conveniência. Com o tempo, começou a soar como encenação. E foi lendo Shopping Center: A Catedral das Mercadorias, da Valquíria Padilha, que tudo ganhou nome, estrutura e intenção. Eu li esse livro há uns 10 anos atrás, mas agora, sob um outro ponto de vista, a percepção evoluiu. O shopping não é apenas um espaço de compras. Ele é um projeto de mundo. Um mundo higienizado, vigiado e profundamente simbólico.
Valquíria parte de uma ideia simples e poderosa: o shopping tenta simular uma cidade ideal. Uma cidade sem imprevisibilidade. Sem pobreza visível. Sem conflitos sociais aparentes. Uma cidade onde tudo funciona, desde que você pague.
Ali dentro, a rua é limpa, o clima é constante, o tempo parece suspenso. Não existe noite, não existe chuva, não existe silêncio. Existe fluxo. Movimento contínuo. Estímulo permanente. Essa “cidade artificial” não substitui apenas o comércio de rua. Ela substitui o espaço público como experiência de convivência. O encontro casual, o ócio gratuito, a presença sem obrigação de consumo deixam de existir.
No shopping, estar é consumir. Mesmo quando você “não compra nada”.
O título do livro não é metáfora exagerada. A analogia com a catedral é precisa. O shopping também tem seus rituais, sua arquitetura monumental, sua iluminação estratégica e seu comportamento esperado. Não se entra de qualquer jeito. Não se anda de qualquer forma. Existe uma liturgia silenciosa: olhar vitrines, circular, desejar, consumir - ou pelo menos simular pertencimento.
Se antes as pessoas buscavam alento espiritual nos templos, hoje buscam anestesia emocional entre vitrines. O consumo vira resposta automática para o cansaço, a frustração e o vazio. Não se trata apenas de comprar coisas. Trata-se de sentir que ainda se pertence a algo.
Um dos pontos mais incômodos do livro é a crítica ao lazer-mercadoria. No shopping, o descanso não é descanso. É produto. Para sentar, consome-se. Para se divertir, paga-se. Para circular com conforto, aceita-se ser vigiado. O lazer deixa de ser criação, pausa ou encontro. Ele se transforma em mais uma etapa do ciclo produtivo. Mesmo nos momentos “livres”, seguimos performando como consumidores. Isso molda subjetividades. Ensina, sem dizer, que o prazer precisa de preço. Que o descanso precisa de ticket. Que a felicidade está sempre logo ali, na próxima vitrine.
O shopping se vende como espaço democrático. Mas essa democracia tem critérios claros. A segurança privada observa, seleciona e filtra. Quem não consome demais incomoda. Quem consome de menos desconfia. Quem não se encaixa no perfil é gentilmente convidado a sair. Não é sobre crime. É sobre estética social. Sobre manter intacta a fantasia de um mundo sem desigualdade - ainda que ela esteja logo do lado de fora da porta giratória. O shopping não elimina a exclusão. Ele a esconde.
Talvez a crítica mais profunda do livro seja sobre identidade. Aos poucos, vamos aprendendo a nos definir pelo que compramos, pelo que usamos, pelo que conseguimos acessar.
As relações passam a ser mediadas por objetos. O valor pessoal se confunde com poder de compra. A pessoa vira vitrine. O corpo vira suporte de marca. Nesse cenário, o ser humano deixa de ser sujeito. Passa a ser meio. Meio de circulação de mercadorias, símbolos e desejos que nunca se completam.
Shopping Center: A Catedral das Mercadorias não é um livro contra o consumo em si. É um livro contra a naturalização de um modelo que transforma tudo - inclusive o tempo livre, o encontro e a identidade - em produto.
Ler Valquíria Padilha é perceber que muitos dos vazios contemporâneos não surgiram do nada. Eles foram cuidadosamente construídos, iluminados e climatizados, pois o shopping não é neutro. Ele educa, ele molda, ele ensina a desejar.
Nem todo conforto é abrigo. Nem toda luz é clareza. Às vezes, sair da bolha é o primeiro passo para lembrar que a vida acontece do lado de fora das vitrines.
Até mais! 📖




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