🔵🟢 Deus Vira Decreto (filme 28/48)
- André

- 11 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
O dia em que a fé deixou de consolar e passou a governar corpos.

Vídeo/Imagem: site imdb
Eu não conhecia a série O Conto da Aia, uma querida amiga me apresentou....e confesso que não encarei como ficção distante. Assisti como quem lê um aviso colado na parede, meio amassado, dizendo: isso começa assim. Não com tanques na rua, mas com discursos bem-intencionados, versículos fora de contexto e a promessa de “salvar a nação”.
A primeira temporada de O Conto da Aia não fala apenas de um futuro distópico. Ela fala do presente - quando a religião abandona o campo do sentido e entra no campo do poder. E quando isso acontece, ninguém sai ileso. Nem quem acredita estar no comando.
Gilead nasce de uma crise real: infertilidade, medo coletivo, sensação de colapso. Esse detalhe é crucial. Nenhum regime autoritário se instala no vácuo. Ele sempre se alimenta do desespero.
O fundamentalismo que toma os EUA na série não cria algo novo. Ele sequestra símbolos antigos. Bíblia, família, moral, tradição. Tudo isso vira instrumento de controle. A fé deixa de ser experiência íntima e vira política pública. A religião deixa de ser caminho e vira código penal.
As Aias não são apenas mulheres oprimidas. Elas são o resultado lógico de um sistema que transforma o corpo feminino em território do Estado. Não importa o que June pensa, sente ou deseja. O que importa é sua função. Útero útil. Voz descartável.
E aqui está o ponto mais perverso: tudo é feito “em nome de Deus”. O estupro vira ritual. A violência vira obediência. A crueldade vira virtude. Quando a religião se funde ao poder, o mal não se apresenta como mal. Ele se apresenta como dever.
Serena Joy é talvez a personagem mais pedagógica da série. Ela ajudou a construir Gilead. Escreveu livros, discursou, militou. E quando o regime se consolida, ela perde o direito de ler. A regra é simples: ideólogos servem até o dia em que atrapalham. Depois, são silenciados pelo próprio sistema que ajudaram a criar.
O Brasil, evidentemente, não é Gilead. Mas fingir que não há paralelos é desonestidade intelectual.
Aqui também vemos a tentativa constante de transformar crença pessoal em lei universal. De confundir Estado laico com Estado antirreligioso. De usar a fé como atalho para o poder político.
Quando líderes religiosos sobem em palanques dizendo falar “em nome de Deus”, algo já deu errado. Deus não precisa de mandato. Fé não precisa de maioria parlamentar. Espiritualidade não se impõe por decreto.
O discurso é sempre parecido: defesa da família, dos bons costumes, da moral. Mas, na prática, o que se vê é controle sobre corpos, especialmente os corpos femininos e os corpos pobres. Quem pode tudo, segue podendo. Quem já tem pouco, perde até o direito de decidir sobre si.
A mistura de religião e política cria uma blindagem perigosa. Quem discorda não é apenas opositor - é herege, inimigo, imoral. E quando o debate sai do campo das ideias e entra no campo da salvação ou da condenação, a democracia começa a apodrecer por dentro.
O Conto da Aia ou The Handmaid’s Tale incomoda porque desmonta a fantasia de que “com boas intenções tudo dá certo”. Não dá. Quando religião e política se misturam, a fé perde sua alma e a política perde seus limites.
June resiste não com discursos grandiosos, mas com pequenos gestos de humanidade. Olhares, recusas, silêncios. A série lembra que regimes autoritários começam quando pessoas comuns aceitam se calar para “manter a ordem”.
Não é sobre ser contra a fé....é sobre ser contra o uso da fé como ferramenta de dominação.
Avaliação pessoal (notas 0/10):
Direção: 9
Roteiro: 9
Fotografia: 9
Trilha Sonora: 8
Mensagem: 10
Nota Final: 9
Até! 🙏🏼




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