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🔵🟢 Leitura Mensal: Nem Fuga, Nem Santidade (livro 9/12)

  • Foto do escritor: André
    André
  • 30 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

A coragem silenciosa de quem escolhe viver com o essencial.


                                            Vídeo/Imagem: arquivo pessoal



Essa deve ser a quarta ou quinta biografia do Francisco de Assis que leio, e eu sempre desconfio quando alguém vira símbolo demais. Quando a imagem fica maior que a pessoa, geralmente algo humano foi apagado no caminho. Foi com essa desconfiança que cheguei a esse livro São Francisco de Assis: O Santo da Paz e do Bem, de Frei Geraldo Monteiro.


O que encontrei ali não foi um santo distante, nem um personagem etéreo. Encontrei um homem de carne, desejo, erro, medo e decisão. Um sujeito que viveu intensamente antes de escolher viver de outro jeito. E talvez seja exatamente isso que mais me interessa: não o ponto de chegada, mas o processo. Esse livro não fala de santidade como perfeição. Ele fala de coerência. E isso, pra mim, muda tudo.


Francisco não nasceu pronto. Ele nasceu intenso. Jovem, carismático, expansivo. Gostava de festa, de reconhecimento, de ser visto. Frei Geraldo deixa isso muito claro: não houve apagamento dessa energia. Houve redirecionamento.


Isso me chamou atenção porque muita gente acha que mudar de vida é se anular. Francisco fez o oposto. Ele parou de gastar energia tentando sustentar um personagem e passou a viver com o que era essencial. O resto caiu sozinho.


A crise dele não foi mística no sentido romântico. Foi concreta. Prisão, doença, frustração. Um corpo que não respondia mais. Um futuro que não fazia mais sentido. Aquela sensação silenciosa de estar vivo, mas desalinhado.


E aí vem a escolha mais radical do livro: a pobreza não como sacrifício, mas como estratégia. Francisco entendeu que certas estruturas, mesmo legítimas, pesam. Consomem tempo, energia, atenção. Ele quis leveza não para fugir do mundo, mas para conseguir estar inteiro nele.


Quando ele encontra o leproso, o texto não suaviza nada. Tem nojo, tem medo, tem resistência. A grande virada não é espiritual - é humana. Ele atravessa a própria repulsa. Não porque era santo, mas porque decidiu não ser refém do próprio limite.


O encontro com o sultão vai na mesma linha. Não é heroísmo. É presença. Francisco não foi converter ninguém. Foi se encontrar com alguém. Sem tese, sem disputa, sem performance.


Só gente falando com gente, em plena guerra. E talvez o ponto mais duro do livro seja o final. Francisco sofre ao ver sua experiência virar instituição. Regra, cargo, hierarquia. Ele não rompe, mas se afasta. Escolhe terminar a vida com o mínimo, quase invisível, para não perder aquilo que o fez começar. Isso mostra que até boas ideias podem se tornar pesadas quando perdem simplicidade. E que viver bem exige, o tempo todo, escolhas pequenas e repetidas. Reduzir, simplificar, estar.


Nada aqui é sobre negar o mundo. É sobre não ser engolido por ele.


Esse livro não me fez querer ser Francisco. Me fez olhar para o que carrego sem necessidade. Para o que mantenho por medo. Para o que já perdeu sentido, mas ainda ocupa espaço. Francisco não foi grande porque renunciou a tudo. Ele foi grande porque soube escolher. E escolheu todos os dias. Mesmo quando doía. Mesmo quando decepcionava. Mesmo quando ficava sozinho.


É uma leitura que não inspira pelo ideal, mas pela prática. Pela coragem de viver com menos para se ter mais. Pela clareza de que paz não é ausência de conflito - é alinhamento interno.


Vale muito a leitura.


Não como obra religiosa, mas como manual de humanidade.


Às vezes, viver em paz não é chegar a algum lugar - é saber o que deixar pelo caminho, e aproveitar o que realmente importa.


Até a próxima escolha simples! 📖

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